Atenção aos Fatores de Riscos Psicossociais no setor de Telecomunicações e Compartilhamento de Postes
- Rafaela Ussier

- 2 de jun.
- 4 min de leitura
O ambiente de compartilhamento de infraestrutura (postes) entre o setor de energia e as telecomunicações é um dos cenários de trabalho mais complexos, insalubres e psicologicamente desgastantes do Brasil. O trabalhador de campo — cabistas, instaladores e técnicos de fibra óptica — atua em uma interseção perigosa: a alta pressão por produtividade digital e o risco letal do ambiente físico. Com base em dados atualizados de órgãos de saúde, publicações acadêmicas (SciELO/Physis, 2024/2025) e anuários de segurança elétrica (Abracopel, 2024), observamos o mapeamento dessa realidade com atenção para os Riscos Psicossociais no ambiente de trabalho.
O Desgaste Mental no Setor de Telecomunicações
Estudos recentes focados nas condições de trabalho nas telecomunicações revelam que a categoria sofre de um esgotamento crônico que afeta tanto o corpo quanto a cognição. Microgerenciamento e "Neurose de Campo": A implementação de tecnologias de rastreamento de rotas e monitoramento via aplicativos forçou um ritmo de trabalho sem pausas. Os técnicos desenvolvem quadros de hipervigilância e estresse contínuo pela necessidade de cumprir os rigorosos SLAs (Acordos de Nível de Serviço) das operadoras. Perda de Identidade e Sintomatologia: Pesquisas de 2024 apontam que trabalhadores de campo do setor (com idade média em torno de 40 anos e longo tempo de mercado) apresentam sintomas físicos severos (distúrbios do sono, cansaço extremo) associados a sinais psicológicos de perda de sentido do trabalho e sensação de inutilidade, agravados pela forte precarização e terceirização.
Quando trazemos esses dados para os técnicos de campo, cabistas, instaladores e eletricistas que atuam no ecossistema de compartilhamento de postes, os gatilhos psicossociais tornam-se muito específicos:
Os Principais Gatilhos de Desgaste Mental
Hipervigilância Constante: Trabalhar na rede aérea compartilhada exige atenção simultânea a cabos de alta tensão (NR-10) e trabalho em altura (NR-35). Estudos da Fiocruz apontam que o medo iminente de acidentes graves gera um estado crônico de ansiedade (CID F41) e reações ao estresse grave (CID F43).
A Precarização pela Terceirização: A maior parte dos operários de postes pertence a empresas terceirizadas. O monitoramento rígido por aplicativos de celular, o controle minucioso do tempo de deslocamento e os prazos sufocantes para bater as metas das operadoras geram o que a denominamos "neurose de campo".
Caos na Infraestrutura Urbana: O emaranhado clandestino de fios nos postes (assunto de constantes disputas regulatórias e pareceres da AGU) eleva exponencialmente a irritabilidade, o sentimento de impotência e a exaustão dos técnicos, que precisam resolver problemas estruturais sob a pressão do relógio.
Quando o esgotamento mental se cruza com o trabalho em altura e a proximidade com redes energizadas, o índice de acidentes dispara. A ocupação desordenada e frequentemente clandestina dos pontos de fixação nos postes torna a execução das NRs (Normas Regulamentadoras 10 e 35) quase impossível na prática. São registradas em média 750 fatalidades anuais no Brasil. No epicentro dos acidentes fatais, 65% ocorrem em redes aéreas de distribuição. Porém também deve ser levada em consideração a subnotificação, uma vez que a causa mortis na certidão de óbito frequentemente registra apenas "traumatismo craniano" (devido à queda do poste), ocultando o choque elétrico inicial.
Consequências Psicológicas e Emocionais
A morte traumática em campo não afeta apenas a vítima; ela destrói o clima organizacional e a estrutura emocional dos sobreviventes, sendo um fator de risco psicossocial gravíssimo para toda dinâmica do trabalho. Para avaliar as consequências e o risco psicossocial remanescente nessas equipes, é preciso observar as equipes, os gestores e o ambiente pós-acidente sob alguns pontos de atenção. O luto e o medo iminente de um novo acidente (frequentemente desenvolvendo quadros de Transtorno de Estresse Pós-Traumático - TEPT) atuam como uma carga emocional esmagadora, paralisando a equipe. O trabalhador pode consolidar uma crença de que não tem controle algum sobre sua própria segurança, existe a quebra na confiança com a gestão caso a empresa não preste apoio psicológico adequado após o acidente ocorrido, contribuindo para a sensação de "sermos descartáveis" no coletivo de trabalhadores.
Além disso, o trauma pode aumentar o estresse e a irritabilidade, contribuindo para mais conflitos internos, gerando isolamento entre os membros da equipe de campo. Pode surgir uma confusão sobre os limites de responsabilidade ("de quem é o fio que matou o colega?"), gerando hesitação constante na tomada de decisão em campo. E mais, caso as intervenções paliativas da empresa após o acidente não sejam bem estruturadas e transparentes, podem gerar mais insegurança e desconfiança sobre os reais motivos das mudanças.
"Quando falamos em infraestrutura inteligente, normalmente pensamos em tecnologia, conectividade e monitoramento. Mas nenhuma infraestrutura é verdadeiramente inteligente se não considerar as pessoas que a projetam, operam e mantêm. A atenção aos Fatores de Riscos Psicossociais no trabalho nos convida a ampliar o conceito de segurança: cuidar não apenas dos ativos físicos, mas também da infraestrutura humana que sustenta toda a operação."
Rafaela Barrotti Ussier - Psicóloga especialista fundadora da CONECTAREM
Fontes Consultadas:
Dados do Ministério da Previdência Social / INSS (Balanço de Transtornos Mentais)
Ministério do Trabalho e Emprego (Atualizações da NR-1)
Estudos Epidemiológicos publicados na SciELO/Fiocruz sobre o desgaste mental em telecomunicações
Interfaces entre trabalho e desgaste mental em trabalhadores das telecomunicações" (Nunes, C. P. P.; Lira, P. V. R. A., 2024). Anuário Estatístico de Acidentes de Origem Elétrica 2024/2025 (Ano base 2023/2024).
Caminhos jurídicos para redução de assimetrias entre empregados diretos e terceirizados no setor elétrico" (Resque, J. D. D. et al., 2024)
IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - 2022/2023) Textos para Discussão (TD 2812 e TD 2727) sobre Compartilhamento de Infraestrutura e Enterramento de redes






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